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Omnibus: a ilusão do alívio e o que as empresas portuguesas estão mesmo a decidir
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Omnibus: a ilusão do alívio e o que as empresas portuguesas estão mesmo a decidir

Equipa CORE

A revisão Omnibus reduziu o perímetro obrigatório da CSRD, mas não a pressão ESG. Três cenários concretos para empresas portuguesas - e a decisão ótima em cada um.

Três anos a preparar uma versão da CSRD que já não existe

Durante três anos, as empresas portuguesas prepararam-se para uma versão da CSRD que já não existe. Em fevereiro de 2026, o Conselho da União Europeia adotou formalmente a revisão Omnibus, reduzindo drasticamente o número de empresas obrigadas a reportar sustentabilidade. Para muitas direções financeiras e administrações que estavam a meio de projetos de implementação, a primeira reação foi de alívio. A segunda, mais tarde, foi a descoberta de que o alívio é parcial - e que a pergunta certa já não é "somos obrigados?", mas "quem nos vai continuar a pedir informação?".

No artigo anterior (/insights/csrd-omnibus-o-que-muda-portugal) fizemos o enquadramento factual: calendário, limiares, simplificação dos ESRS. Aqui olhamos para a decisão de gestão que se segue: a pressão de cadeia, os três cenários típicos em Portugal, e o que as direções financeiras estão concretamente a escolher em 2026.

A ilusão do alívio

Durante algumas semanas, a conversa em várias direções financeiras portuguesas foi "ficámos de fora, podemos desacelerar". A realidade, passados seis meses, é mais subtil. As empresas ficaram de fora da obrigação direta, mas não ficaram de fora da pressão ESG.

Essa pressão chega por três canais. O primeiro são os clientes europeus: uma empresa portuguesa que forneça, por exemplo, uma cadeia de retalho alemã ou uma construtora francesa, continua a receber questionários ESG - porque essa cadeia ou construtora está ela própria obrigada a reportar Scope 3. O segundo canal é a banca: bancos europeus com compromissos de net-zero precisam de dados ESG dos seus clientes empresariais para calcular a exposição das suas próprias carteiras; em Portugal, ao longo de 2025, vários bancos introduziram cláusulas ESG em linhas de crédito renováveis. O terceiro canal são os fundos e investidores institucionais, que usam ratings ESG externos e pedem cada vez mais dados primários às empresas participadas.

O resultado é que uma empresa portuguesa típica, com entre 250 e 800 trabalhadores, está hoje fora da obrigação direta CSRD mas é simultaneamente: fornecedora de pelo menos dois ou três clientes europeus obrigados, cliente de pelo menos um banco com política ESG ativa, e potencial candidata a investimento ou M&A onde a diligência ESG é já prática standard. A obrigação formal desapareceu. A procura por dados não.

Porque é que o VSME importa - e não é só um formulário

O VSME tem dois módulos. O módulo básico é obrigatório para qualquer empresa que queira reportar VSME, e cobre governance, ambiente e social com indicadores proporcionais. O módulo abrangente é opcional e adiciona disclosures sobre temas mais complexos como transição climática, cadeia de valor e direitos humanos. A EFRAG disponibiliza template digital e taxonomia XBRL, o que significa que um reporte VSME é estruturalmente compatível com reporte CSRD - se amanhã a empresa crescer ou o perímetro mudar, o esforço é reaproveitável.

A Comissão Europeia recomendou o VSME precisamente com este objetivo: criar uma linguagem comum entre grandes empresas, PMEs fornecedoras, bancos e investidores. Em vez de cada grande cliente enviar o seu questionário proprietário, pode referenciar o VSME como base. Em vez de cada banco criar a sua checklist ESG, pode usar o VSME como ponto de partida. A hipótese é que, ao longo de 2026 e 2027, o VSME se torne o passaporte ESG informal para qualquer empresa que queira continuar a operar em cadeias de valor europeias.

Mais contexto sobre o VSME em /servicos/sustentabilidade/vsme e um guia de introdução em /insights/o-que-e-vsme-pmes-portuguesas.

Três cenários, três decisões diferentes

Nem todas as empresas portuguesas estão na mesma posição. No trabalho com clientes ao longo de 2025 e 2026, observamos três cenários recorrentes, cada um com uma decisão ótima diferente.

Cenário 1 - Empresa ainda obrigada

Organizações que se mantêm acima dos novos limiares (mais de 1.000 trabalhadores e 450 milhões de volume de negócios). Para estas empresas, o Omnibus não é uma pausa - é um refinamento. As obrigações continuam, mas há espaço para consolidar governance de dados, melhorar controlo interno e chegar ao primeiro reporte com qualidade auditável, em vez de qualidade de primeira vez. A decisão ótima é: manter o projeto, mas investir na camada de assurance readiness.

Cenário 2 - Empresa saiu do perímetro mas sofre pressão de cadeia

O maior grupo em Portugal. Empresas entre 250 e 999 trabalhadores, frequentemente entre 50 e 300 milhões de volume de negócios, que estavam a preparar CSRD e agora não são obrigadas - mas continuam a receber questionários de clientes, bancos e investidores. A tentação é parar o projeto para poupar custo. A decisão ótima é diferente: reconverter o projeto para VSME. Aproveitar 60 a 70% do trabalho já feito (ver /servicos/sustentabilidade/analise-materialidade, dados, governance) e entregar um reporte VSME proporcional em vez de um ESRS completo. O resultado é um documento que responde a 80% dos pedidos da cadeia com 30% do esforço.

Cenário 3 - Empresa que nunca começou

PMEs e empresas de média dimensão que nunca se prepararam para CSRD, mas que começam a sentir pressão crescente. Questionários de um ou dois clientes europeus, uma pergunta esporádica do gestor bancário, um rumor de que o maior cliente vai exigir dados em 2027. A decisão ótima aqui é começar pequeno e estruturado. Um diagnóstico inicial identifica onde há maior risco e maior oportunidade. Um sprint VSME de 6 a 8 semanas dá à empresa um reporte utilizável, dados organizados e, crucialmente, uma resposta pronta na próxima vez que um cliente pedir informação.

O que as direções financeiras estão a decidir agora

Observando decisões reais em clientes em 2026, três padrões emergem.

O primeiro é a preferência crescente por abordagens no-regret: soluções que funcionem tanto no cenário atual como em cenários futuros de maior exigência. Investir em dados ESG estruturados é no-regret. Investir num relatório artesanal que serve apenas o ciclo de 2026 não é.

O segundo padrão é a convergência entre reporte ESG e função financeira. Cada vez mais, são os CFO e não os diretores de sustentabilidade a liderar estes projetos. A razão é que os dados ESG tornaram-se material para custo de capital, valuation em fusões e aquisições e acesso a financiamento. Quando o reporte ESG entra no perímetro do controlo financeiro, as exigências de auditabilidade, controlo interno e rastreabilidade aumentam drasticamente.

O terceiro padrão é a opção clara por parceiros especializados de implementação, em vez de grandes redes de auditoria. A lógica é simples: as grandes redes têm conflitos estruturais (vendem consultoria e assurance, frequentemente para o mesmo cliente), custos horários superiores e equipas muito mais juniores no dia-a-dia. Para empresas portuguesas de média dimensão, a combinação de profundidade técnica com proximidade sénior é uma vantagem tangível.

Três perguntas para fazer esta semana

Independentemente do cenário em que a sua empresa se encontra, estas três perguntas ajudam a clarificar a decisão certa.

  1. Quantos pedidos ESG recebemos nos últimos 12 meses?: Se são mais de três - de clientes, bancos, investidores ou parceiros - o custo de não ter uma resposta estruturada é já superior ao custo de a preparar.
  1. Quanto tempo demora a nossa equipa a responder a um pedido de dados de sustentabilidade?: Se são mais de quatro horas, há um problema de estrutura de dados que o VSME resolve.
  1. Temos alguém que saiba explicar, em cinco minutos, a nossa abordagem a dupla materialidade, emissões e governance ESG?: Se não, a lacuna não é de reporte - é de coerência narrativa. E uma análise de materialidade resolve-a.

O que a CORE recomenda

A nossa leitura do Omnibus é que ele clarificou o que já suspeitávamos: para a maioria das empresas portuguesas, o caminho certo não é preparar uma mini-CSRD artesanal, nem ignorar o tema. É adotar uma abordagem proporcional, estruturada e auditável, baseada em VSME, com capacidade de escalar para ESRS completo no futuro se o perímetro voltar a mudar ou se a empresa crescer.

Se a sua empresa está num dos três cenários descritos acima, vale a pena uma conversa de 30 minutos para clarificar onde está, que pressões reais enfrenta, e que caminho faz sentido nos próximos doze meses. Sem compromisso, sem proposta automática. Contacte-nos em /contacto.